“Um assassinado” — Um nome que nunca soubemos
Há registos paroquiais que nos permitem acompanhar famílias inteiras ao longo de gerações. Vemos nomes repetirem-se, apelidos fixarem-se, histórias que ganham continuidade. E depois há outros registos que nos confrontam com o oposto absoluto: uma vida sem nome, sem origem conhecida e sem qualquer descendência registada. No livro de óbitos da paróquia de Santa Catarina do Vale , concelho de Odemira, encontrei um desses casos. Trata-se do assento n.º 12 do ano de 1894 , que tem, à margem, duas anotações secas e inquietantes: “Arieiro” e “Um assassinado”. Antes de transcrever o texto, vale a pena situá-lo no seu tempo. No Alentejo do final do século XIX, a presença de trabalhadores ocasionais, jornaleiros itinerantes e homens em trânsito era uma realidade comum. A agricultura sazonal, a apanha da cortiça e os trabalhos rurais temporários levavam muitos jovens a circular entre concelhos, muitas vezes sozinhos, sem família próxima e sem ligação duradoura às comunidades onde passavam....





