Sobre graus de parentesco, primos e outras confusões inevitáveis

Quem anda pelos livros paroquiais há algum tempo já passou por isto: estamos a ler um assento de casamento e, a certa altura, aparece a famosa nota “foram dispensados em tal grau de consanguinidade”.

E pronto. Fecha-se o livro, suspira-se, e começa o exercício mental: mas afinal… parentes como?

Confesso que este é um daqueles temas que gera mais confusão do que devia. E a culpa não é nossa. É que quase toda a gente tenta interpretar estes graus com a lógica do parentesco civil atual e aí é que tudo descarrila.

A primeira coisa a ter em conta é simples: nos registos paroquiais não interessa o grau civil de parentesco. O que conta é a forma como a Igreja fazia estas contas.

E a lógica da Igreja é outra.

Em vez de perguntar “que tipo de primos são?”, a pergunta certa é: quantas gerações separam cada noivo do antepassado comum?

É sempre a partir daí que se conta.

Imaginemos um antepassado comum. Os filhos dessa pessoa estão no primeiro grau. Os netos, no segundo. Os bisnetos, no terceiro. E os trinetos, no quarto. Não há atalhos nem traduções modernas.

Antepassado comum

Filho ─────────── 1.º grau

Neto ──────────── 2.º grau

Bisneto ───────── 3.º grau

 Trineto ───────── 4.º grau

Por isso, quando num assento se lê apenas que os noivos foram dispensados em quarto grau, isso quer dizer que ambos eram trinetos do mesmo antepassado. Em linguagem de hoje, diríamos que eram primos em terceiro grau. Na época, dizia-se apenas que estavam no quarto grau de consanguinidade, e isso bastava para saber que era necessária dispensa.

Às vezes o padre era mais específico e escrevia algo como “dispensados em terceiro e quarto grau”. Aqui a leitura é direta: um dos noivos estava a três gerações do tronco comum (bisneto), o outro a quatro (trineto). Distâncias diferentes, mesmo antepassado.

E depois há os casos que fazem levantar a sobrancelha, como as dispensas em grau “dobrado”. Quando isso aparece, normalmente quer dizer que o parentesco existia por mais de uma via. Não é figura de estilo, há mesmo famílias em que os noivos eram primos duas vezes, por ramos diferentes da árvore. Pequenas comunidades, pouca mobilidade, e árvores que se fecham sobre si próprias com naturalidade.

Também aparecem, com alguma frequência, as dispensas de afinidade. Estas não têm a ver com sangue, mas com casamento. Surgem sobretudo quando um viúvo ou viúva casa novamente e existe parentesco entre o novo cônjuge e o anterior. A contagem faz-se da mesma maneira, mas o vínculo é outro.

Tudo isto pode parecer excessivamente técnico, mas a verdade é que estas notas são autênticos presentes para quem faz genealogia. Uma dispensa bem lida poupa tempo, orienta a pesquisa e aponta quase sempre para um antepassado comum bem definido. Não são pormenores burocráticos: são pistas.

E convém lembrar que casar dentro destes graus não era exceção nem motivo de escândalo. Era simplesmente o que acontecia em freguesias pequenas, onde as famílias se conheciam há gerações.

No fundo, quando encontramos uma dispensa, não estamos perante um problema. Estamos perante uma chave. Basta saber como a usar.

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