“Um assassinado” — Um nome que nunca soubemos

Há registos paroquiais que nos permitem acompanhar famílias inteiras ao longo de gerações. Vemos nomes repetirem-se, apelidos fixarem-se, histórias que ganham continuidade.

E depois há outros registos que nos confrontam com o oposto absoluto: uma vida sem nome, sem origem conhecida e sem qualquer descendência registada.

No livro de óbitos da paróquia de Santa Catarina do Vale, concelho de Odemira, encontrei um desses casos.

Trata-se do assento n.º 12 do ano de 1894, que tem, à margem, duas anotações secas e inquietantes: “Arieiro” e “Um assassinado”.

Antes de transcrever o texto, vale a pena situá-lo no seu tempo.

No Alentejo do final do século XIX, a presença de trabalhadores ocasionais, jornaleiros itinerantes e homens em trânsito era uma realidade comum. A agricultura sazonal, a apanha da cortiça e os trabalhos rurais temporários levavam muitos jovens a circular entre concelhos, muitas vezes sozinhos, sem família próxima e sem ligação duradoura às comunidades onde passavam.

Viviam à margem do registo social: não eram naturais do lugar, não tinham padrinhos locais, não deixavam descendência conhecida. Quando algo lhes acontecia, era frequente que pouco ou nada se soubesse sobre quem eram.

A violência rural, embora não constante, também não era inexistente. Conflitos pontuais, roubos, ajustes de contas ou situações nunca totalmente esclarecidas surgem ocasionalmente na documentação judicial e paroquial da época. Quando a vítima era desconhecida, o registo acabava por ser lacónico, limitado ao essencial.

Este assento encaixa perfeitamente nesse quadro.


O texto do assento diz o seguinte:

“Aos 16 dias do mês de junho de 1894, às 4 horas da tarde, no lugar do Arieiro desta freguesia do Vale, concelho de Odemira, diocese de Beja, foi encontrado morto debaixo de um sobreiro, com indícios de ter sido assassinado, um indivíduo do sexo masculino, de idade de 22 anos pouco mais ou menos, estatura menos que regular, imberbe, vestindo fato de cotim acinzentado e pobremente, cujo nome, naturalidade, morada e filiação se ignora, e foi sepultado no cemitério público desta freguesia.

E para constar lavrei em duplicado este assento que assino.
Era ut supra.
O Pároco, Alfredo Augusto de Almeida Paes.”

É um texto curto, objetivo, quase administrativo  e, no entanto, profundamente humano.

Sabemos apenas o dia e a hora em que foi encontrado, o lugar — o Arieiro, a idade aproximada, a estatura, o aspeto físico, a roupa modesta, e o facto de ter sido encontrado morto debaixo de um sobreiro.

Nada mais. Não sabemos o nome. Não sabemos de onde vinha. Não sabemos se alguém o procurou. Não sabemos sequer as circunstâncias concretas da morte. Apenas existe a palavra “assassinado”, anotada à margem, sem explicação.


O topónimo Areeiro aponta para um lugar concreto da freguesia, onde antigamente se extraía areia, que não consegui localizar no mapa atual da freguesia. O sobreiro remete-nos para a paisagem alentejana mais típica, mas também para a solidão dos caminhos rurais. Tudo indica que este jovem não era conhecido na comunidade, ou pelo menos não o suficiente para que alguém pudesse identificá-lo.

Este é um daqueles assentos em que a genealogia não constrói uma árvore, mas antes regista uma ausência.

Ainda assim, o pároco cumpriu o seu dever: deu-lhe sepultura, escreveu o registo, fixou no papel aquilo que, de outro modo, se perderia por completo.

Mais de um século depois, este óbito continua a levantar perguntas sem resposta:

Quem era este rapaz?
Porque estava ali?
E porque morreu?

Talvez nunca o saibamos. Mas enquanto este registo existir, ele não desapareceu por completo.

E talvez seja também isso que os livros paroquiais fazem, não guardam apenas histórias de famílias, guardam também os vestígios frágeis de vidas solitárias e interrompidas.

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